independent author of the cosmos 𓆉
atualizada em: março 2026.
O relógio mal tinha batido às três da tarde e a Zenith já tinha faturado quase trezentos mil dólares, mantendo sua reputação de gênios selvagens e intocáveis no universo pervertido da bolsa de valores. De acordo com o The New York Times, eles não passavam de uns merdinhas imunes aos problemas da vida real, sem medo nenhum de se enfiarem dentro da boca dos peixes grandes de Wall Street. Jeong especificamente, esse caipira mestiço que amava dinheiro tanto quanto um viciado amava heroína, estava no topo da lista. Na visão simplista do cara, apenas a morte não podia ser resolvida com um cartão de crédito.
Sua missão diária era fechar o dia com mais de meio milhão. Era um número razoável, segundo ele. Um dia, essa quantia não iria satisfazê-lo tanto assim e daí precisaria passar para a casa seguinte, os seiscentos mil. E quando isso não fosse o bastante, haveria o próximo degrau. Não importava se aquele tipo de feito fosse minimamente extravagante e perigoso, ou até mesmo impossível; era mais interessante e vantajoso a venda da ideia do que da realidade, pelo menos quando se tratava do CEO da Zenith Capital, com seus mais de duzentos funcionários que não podiam, em hipótese alguma, pensar de forma miserável sobre o futuro. Afinal, era graças a eles também que faturava.
Fui assim um dia, pensava ele quando se lembrava das pobres carinhas desesperadas suando frio por todo o setor comercial. E eles acham que, um dia, serão como eu.
— Isso vai dar merda. — disse a voz de Jordan, seu sócio, do outro lado da linha. — Você tá se metendo numa conta grande demais. Nem o Alabama todo tem esse dinheiro.
— O Alabama nunca teve dinheiro. Esqueceu que o primeiro Mc Donald’s só chegou aqui há dez anos?
— Engraçadinho. Os cretinos de Wall Street vão te pegar se essa sua artimanha der certo.
— Qual delas? A compra da Dark Pool ou meu novo empreendimento no setor de tecidos? — ele fez o que já estava morrendo de vontade de fazer: jogou as pernas para cima da mesa e acendeu seu cigarro, tragando a fumaça enquanto bebia um gole do whiskey Johnnie Walker sempre parado no mesmo lugar do tampo. Exatamente nessa ordem.
O amigo riu do outro lado da linha.
— A terceira opção, seu idiota. A porra do seu casamento.
A expressão de não mudou. Ele jamais teria falado ou pensado no casamento, seja naquela conversa ou em outra. Não era um assunto interessante.
— Ah. É. O que tem?
— Tem que você é um maluco.
— Por me casar? O que isso muda? Vamos continuar indo ao Taki’s toda sexta-feira, Jordan. — ele puxou mais fumaça do cigarro. — Também porque tenho certeza que você não teria um tostão pra continuar cobrindo o turno das prostitutas ilegais. Elas precisam fazer matrícula na previdência.
— Foda-se as prostitutas. Você vai se casar com Naomi Robbie. Não era assim que eu pretendia passar o 4 de julho, mas você não me deu escolha.
— Você tem que estar lá. Chamei o superintendente pra gente ter aquela conversinha com ele depois. Sabe, sobre os impostos.
— Já separou o dinheiro dele?
— Já. Dois milhões devem cobrir pelo menos os próximos um ano e meio. E pra abrir a filial de Nova York.
Jordan riu alto.
— E como vai despistar o governo por lá?
— Já tenho um plano. E dessa vez, não vai ser com meu dinheiro. — ele sorriu ladino, batendo as cinzas do cigarro num cinzeiro de cristal.
— Porra, Naomi é um doce mesmo nessas horas. Aposto que a ideia foi dela.
— Depois de gozar três vezes, toda mulher tem ótimas ideias.
Os dois riram de um jeito satírico e até maldoso. A cena da queridinha Naomi Robbie, filha de um conglomerado imobiliário que comanda Nova York, com peitos enormes e um rosto de boneca que amava os holofotes, bolando planos de ajuntar ainda mais dinheiro com seu belo noivo executivo enquanto ficava de quatro não era difícil de imaginar. Jordan mesmo já tinha feito isso várias vezes, apesar de que nunca falaria sobre isso. A união daqueles dois, tanto em nome quanto em carteiras, seria a garantia de um cheque dobrado no seu bolso todas as semanas pelos próximos cinco anos (era o tempo que ele achava que Naomi aguentaria as puladas de cerca e as drogas de antes que se tocasse da burrice que tinha feito).
Alguém bateu na porta com três socos leves num ritmo apressado e alto. balbuciou uma despedida para Jordan e pediu que entrassem, sem mudar de posição.
O homem de terno bem passado entrou devagar, fechou a porta e tomou cuidado de não cruzar o olhar tão diretamente com num primeiro momento. Era um comportamento padrão; seu chefe poderia estar fazendo tantas coisas ali dentro, e nenhuma delas o impediria de deixá-lo entrar. Jeong não tinha esse tipo de inibição.
Mas hoje ele só estava sentado atrás de sua mesa de carvalho naquela cobertura de vidro, com sua camisa social de gravata atipicamente torta, sua postura preguiçosa na cadeira de couro, seus papeis de contratos e o whiskey e o cigarro de sempre.
— Senhor Jeong. — cumprimentou.
— O que foi, John? Colocaram fogo na lixeira de novo? Estão deixando muito pó na bancada do banheiro?
— Hoje não. Chegou um recado pro senhor. — John tirou um pequeno saco plástico do bolso. — É da senhorita Robbie.
O saquinho pousou na mesa de , e ele imediatamente só fez rir. Principalmente por causa da cor.
A calcinha fio dental era de um verde musgo quase inebriante, combinando com os olhos lascivos de sua noiva e também com o seu cabelo ruivo nada natural, mas que a deixava com a cara que precisava ter. Até hoje ela pensava que essa fosse a cor favorita dele porque tinha dito que ficava bonito nela. Naomi raramente usava a cabeça para o que realmente precisava, e era exatamente por isso que era tão perfeita para ele.
Preso na barra fina da peça, estava um quadradinho quase delicado de bilhete, escrito na letra garranchada e sem costume dela: VÁ VER AS FLORES. PORRA.
Ele revirou os olhos, ainda achando graça, porém menos aliviado.
— A que horas devemos ir, senhor? — John perguntou em seu tom baixo. ainda demorou um pouco para responder.
— Isso não é trabalho da cerimonialista?
— Foi a única tarefa que a senhorita Robbie te deu sobre o casamento.
— É porque ela sabe que vou dar o mais importante depois do casamento. Não pode ir fazer essa besteira pra mim?
— Não po-
— Te dou dois mil dólares.
— É muita gentileza sua…
— Pro inferno com gentileza, estou te subornando. Prefiro aproveitar meu tempo ligando pra algum fodido de Wall Street e ver se diminuem minha taxa de repasse. Fora que flor é tudo flor.
— A senhorita Naomi disse que quer…
— Naomi. Jesus. Naomi quer, quer, quer, ela é incapaz de não querer alguma coisa. — ele bufou alto. Pensou em todas as possibilidades e míseras coisinhas que poderiam livrá-lo daquilo, mas já sentia o sentimento pesado de obrigação. Tinha sido mesmo a única coisa que ela tinha pedido.
Ele sentiu o olhar de John o observando e se colocou de pé, os lábios apertados.
— Beleza. Vamos ver as flores.
E deu uma grande tragada no cigarro caro antes de jogá-lo dentro do copo de whiskey.
Ele não costumava sair do escritório se não fosse para algo de extrema urgência monetária, seja para ganhar ou para gastar dinheiro num viés de ostentação que deixaria qualquer bom cidadão de cenho franzido. A vida, para ser boa de ser vivida, precisava vir regada de prazer. Ele amava dinheiro, sexo, whiskey, boas drogas e, quando ninguém estava olhando, bons livros. Seu objetivo era sempre ser o mais esperto, o mais inteligente, porque só esses caras chegavam ao topo, e esse tal ápice era o que sempre quis. Era o que garotos pobres do vilarejo de Black Belt precisavam querer.
Mas o que ele também amava, e estava sempre se esquecendo disso, era Montgomery. A capital de seus sonhos que era, no mínimo, uma grande contradição de seu estilo de vida e ambições. Homens conseguiam ganhar dinheiro no Alabama, é claro, mas se queriam dinheiro de verdade, precisavam ir à Nova York, eles diziam. Era lá a verdadeira roda da fortuna, o antro de libertinagem que gente de sua laia realmente pertencia. E Nova York era mesmo legal e tudo mais, mas Montgomery… aquelas ruas e prédios antigos da Old Alabama tinham alguma coisa difícil de explicar. Talvez fosse o céu azul. Talvez fosse todo aquele verde. E de que jeito uma capital de apenas trezentos mil habitantes podia ter tão poucos prédios altos? Como isso era atrativo?
A realidade era que todo esse sentimento era um resquício daquele garoto idiota, o imbecil de dezesseis anos que chegou a gostar daquele antro de lama em que vivia cheio de verde e chegou a pensar se Nova York, com toda a sua poluição e sua perpétua inabilidade de mostrar as estrelas realmente fossem uma opção tão boa assim.
Por sorte, essas memórias iam e vinham tão rápido que não eram dignas de preocupação. No fim, Montgomery não passava de um amontoado de passado, um retrato caipira que o enchia de estereótipos por todo canto em que passava, como se seu sotaque já não fosse o suficiente. A irritação transparecia na sua voz a cada vez que precisava se dirigir a alguém da costa leste.
A floricultura ficava na Perry Street, bem perto do Distrito Garden. A escolha tinha sido de Naomi, depois de ter visto a fachada do lugar no instagram e suas recomendações locais. Não era nada grandioso. Nada que a Oprah apresentaria no seu programa de TV ou que recebesse visitas de alguma estrela de cinema (só assim a escolha de Naomi por aquele amontoado de madeira faria sentido). Afinal, ostentação era o verdadeiro motivo daquela festa de casamento, nada mais.
— É aqui mesmo? — perguntou enquanto ajeitava a gravata. Tinha uma lata de lixo imunda na frente da vitrine, matando o já pobre visual.
John consultou o próprio telefone.
— Wild Aster. Rua Perry. É aqui mesmo.
— Quantas flores preciso encomendar?
— Cerca de cinco mil, senhor.
— Acha que essa espelunca vai dar conta disso? — ele franziu o nariz. Tinham apenas algumas pequenas amostras de margaridas e orquídeas brancas na vitrine, flores bonitas e bem podadas, mas simplistas demais. Ele comprava um ramalhete daqueles para qualquer acompanhante que contratava nos tempos das primeiras reuniões.
— Não sei, senhor. — John respondeu. — Precisa entrar e perguntar.
Suspirando uma última vez, resmungou e saiu para a calçada, sem esperar que John abrisse a porta para ele.
O sino da entrada tocou em um tom suave quando pisou dentro do estabelecimento. A primeira coisa que o atingiu em cheio foi o cheiro. Camadas e mais camadas de aromas doces e selvagens, explodindo nas suas narinas ao mesmo tempo que as diferentes cores explodiam nas suas órbitas, todas devidamente organizadas em paletas, formando montinhos de lá a cá, um rebuliço de azul, vermelho, amarelo, laranja, e verde. Era uma selva comprimida entre quatro paredes. Ele teve vontade de arrancar um ramo que encostou no seu terno italiano e grudou uma pétala branca na lapela, mas se conteve no momento em que alguém apareceu atrás do balcão.
— Bom dia, como posso ajudar? — a voz feminina veio de trás de um vaso de camélias rosadas. Era um tipo de flor que não via há muito tempo.
— Naomi Robbie entrou em contato com você? Eu sou…
— O noivo. Claro. Só um instante, eu vou-
A mulher finalmente levantou o rosto e se desprendeu das camélias, saindo de trás do balcão lotado de verde.
O que ela tinha a dizer, foi perdido assim que o viu. E a recíproca também foi verdadeira.
Na mesma hora, sem explicação lógica alguma, ouviu aquele som explodindo na mente mais do que aquelas flores, um som que não era ouvido há pelo menos dez anos: “Eu tenho pena de você”.
“Eu não quero a sua pena”, a voz dele fazia eco de volta. Ainda estava fazendo até ele chegar a Los Angeles e descobrir a primeira pílula mágica que o apagava.
Mas ali, sob aquele teto colorido de flores, nenhuma droga seria potente o suficiente.
— ? — ela falou primeiro, num sopro quase mudo. Ele permaneceu estático, olhando para todos os detalhes do rosto dela, tentando ver se aquele whiskey de mais cedo não estava batizado. Mas ele era um cara que não permitia que ninguém (além dele) mexesse na sua percepção de realidade, então…
— . — diferente dela, a voz dele era mais controlada e rígida, feita para lidar com imprevistos. — Bennett.
Ela assentiu devagar.
— Jeong .
— O que faz aqui? — a pergunta escapuliu em um tom apressado. De repente, ele estava maluco para voltar ao carro. Se enfiar na sua papelada de novo. Tramar a próxima noitada com Jordan. Fingir que nunca tinha visto o rosto dessa mulher, como vinha fazendo nos últimos anos.
Considerando o que conhecia de Bennett, o mesmo se aplicava a ela.
Mas não inventou uma dor de cabeça ou algo parecido para dar as costas e se esconder por trás daquela flor. Na verdade, se contentou em dar um passo para trás e afagar as pétalas macias de algumas hortênsias a tiracolo.
— Estou vendendo flores. Acho que deu pra notar.
Ele olhou para ela e depois para o entorno, como se só agora percebesse de verdade as florações, as cores, os cheiros, e ligando tudo isso à propriedade de .
— É. Flores.
— E você é…? — ela comprimiu os olhos com dúvida. segurou uma série de risos engasgados.
— Dono da Zenith Capital. Acionista majoritário. Acho que deu pra notar.
Ela não esboçou surpresa. Porra, ela estava de brincadeira? Não tinha ouvido falar nele naquele fim de mundo do vilarejo?
— Empresário, então. Estamos no mesmo barco.
Seu tom foi gentil, o que só serviu para deixá-lo com um princípio de irritação. Não, definitivamente não estamos no mesmo barco, não mais.
Ele olhou em volta de novo, colocando as duas mãos na cintura.
— Pega leve, Bennett. Isso aqui não deve fazer nem quatro milhões por ano.
Ele precisou sorrir, afinal de contas. abandonou sua vigília nas hortênsias e o encarou.
— Então, Naomi é sua noiva? Ela pediu um orçamento.
— Sim, claro que pediu. Por que veio pra Montgomery? — ele fitou uma bromélia amarela, dando contraste com outras rosas.
— Oportunidades de trabalho. Precisava aumentar a floricultura.
— Há quanto tempo está aqui?
— Há uns seis meses. Sobre o orçamento…
— Por que saiu de Black Belt?
— É melhor falarmos sobre o orçamento.
— Aham, quanto ficou? — ele levou a mão ao bolso de dentro do paletó, onde existiam todas as opções que ela quisesse: dinheiro, cartão, cheque. — Vou pagar agora.
franziu o cenho, finalmente sendo pega de surpresa.
— Ela pediu pra você escolher.
— Qualquer uma vai estar bom pra mim.
— São pro seu casamento.
— Sei muito bem disso.
parou com a boca semiaberta, experimentando uma necessidade quase inútil de tentar entender… alguma coisa. Definitivamente, tinham muitas coisas acontecendo naquele minuto.
— Hum… tenho girassóis, bromélias, rosas brancas e-
— Eu levo todas.
— Não é assim que funciona, as coisas exigem uma paleta.
— Tudo bem, quais são as mais caras? — ele voltou a estender o cartão de crédito. não se deu ao trabalho de olhar.
— Todas são bem caras. Qual delas combina mais com as outras decorações do casamento?
— Não faço a menor ideia. Por que escolheu um quadrado de lego pra montar uma loja? Você mal tem espaço pra um bebedouro.
segurou um suspiro. O perfume caro dele estava começando a se fazer presente, ofuscando os outros aromas.
— Por favor, escolha suas flores.
— Eu já disse que pode-
— Se não vai escolher, posso pedir pra senhorita Robbie fazer isso. Ela deve saber a paleta de cores da festa.
— Não, espera. — ele a impediu antes que ela se enfiasse para trás daquele balcão de novo e tirasse aquele rosto familiar de sua frente, um rosto que ele ainda estava processando. — Vou escolher as flores. Só… arruma mais duas opções.
— Não é necessário…
— Estou sendo muito exigente? Você acha que não consegue?
— Não é nada disso. As que tenho aqui-
— Não são dignas da minha atenção, se não for se ofender. É difícil até de respirar aqui dentro. O que me leva a perguntar de novo: por que se enfiou tão longe do centro? Sem falar na lata de lixo do lado de fora. A primeira impressão não é das melhores.
Ele não sabia o que estava falando. Só estava abrindo a boca e despejando a primeira coisa que vinha na sua mente. Era algo que há tempos não fazia.
O olhar agora irritado de deu a entender aquele eco de novo: tenho pena de você. Você é digno de pena.
— O que você quer, ?
— Mais opções de escolha. Variedade e exagero. Dez mil exemplares, pra ser exato.
— Dez mil? — ela arqueou a sobrancelha. — Vai se casar ou vai decorar o Grand Canyon?
— Você me deu uma ótima ideia.
— Tenho outros clientes pra atender.
— Pago pelos atendimentos extras.
— É o quê?
Ele sorriu ladino. Falar aquilo era tão bom que ele nem se importou com a clara expressão de raiva da mulher, o sentimento quente tomando-a por completo. Era uma emoção binária na família Bennett, raramente imperceptível.
Seu telefone vibrou no bolso, e foi um certo alívio. Chamou de volta para a realidade, o fez perceber onde estava e com quem estava, mesmo que parecesse loucura.
— Tenho que ir. Prepare as outras opções e verifico tudo de uma vez. — ele tirou seu cartão de visitas do bolso e o colocou em cima do balcão. — Provavelmente vou ficar com todas. Quem sabe assim você não consiga alugar um ponto sem latas de lixo.
E lançou um último olhar para toda aquela vivacidade colorida se avolumando em todas as direções, escapando para fora, desafrouxando a gravata que tinha ficado subitamente mais apertada.
Ser nascido e criado num fim de mundo como Black Belt não era motivo de orgulho nem se decidisse, por fim, ser garçom na capital. No meio corporativo, as pessoas ficariam facilmente iradas se soubessem que tinham sido ultrapassadas ou até subestimadas por um garoto vindo de um lugar tão improvável. achou que poderia usar isso para se vangloriar, mas logo pensou melhor. Preferia o mistério que girava em torno de sua reputação, gostava de plantar essa pulga atrás da orelha dos outros: ou ele veio do nada ou então veio de todos os lugares.
Entretanto, desde o dia em que topou com o rosto familiar e carregado de Bennett, tudo aquilo que estava longe foi puxado para perto, como se estivesse na ponta de um elástico que se soltou. Ele saiu do meio daquelas flores desnorteado, seguiu pelo caminho de volta ao escritório na mais profunda fúria absoluta e, antes que aquele dia terminasse, já estava pensando em opções inconvenientes e ridículas para vê-la de novo.
Por que exatamente queria fazer isso? Para quê? Ela era a própria estátua da Liberdade do seu país do passado, um símbolo para ficar no esquecimento.
E por que queria ver de novo a garota que, uma vez, disse continuamente que ele era digno de pena?
Por que ela tinha que estar ali? Existiam tantas outras cidades no Alabama que adorariam ceder alguns metros quadrados de calçada para um empreendimento de flores coloridas, mesmo que os cidadãos tivessem livre acesso a dezenas delas em cada esquina de quarteirão.
E por que Naomi quis justo aquelas flores? Eram apenas flores. Ele mandaria fabricar uma centena delas para a droga do casamento, se era isso que sua noiva queria. Precisava ter ido justo até ela?
“Me diga se ainda sou digno de pena, Bennett”, ele mastigou um comprimido de Excedrin com força enquanto olhava seu próprio reflexo no vidro escuro do apartamento. Não parava de lembrar do rosto dela, do rosto que era novo e velho ao mesmo tempo, e da frase antiga perpassando aqueles lábios. “Olha pra mim e tenta falar uma coisa dessas de novo.”
O problema era que não parecia tão mudada. O que significava que poderia não dar o que ele queria.
Foi pensando nisso que ele mal esperou John estacionar na frente da Wild Aster em menos de 72 horas depois de sua última visita e se pôs para fora do carro em um salto, desabotoando as mangas do paletó e entrando novamente na loja.
— Boa tarde, como pos-
Dessa vez, ela já estava ali no hall, agora segurando uma tesoura de poda e mexendo em um bonsai. A expressão que fez com a chegada do seu cliente foi qualquer coisa, menos entusiástica.
— .
Ele ignorou o tom. Já tinha a atenção dela.
— Ainda não tenho o que você quer. — ela largou a tesoura ao lado do vaso.
— Eu sei que você ainda não tem. Meu telefone não tocou.
— Flores do casamento são com a Naomi. Você é só o cara que vai passar o cartão.
— Que insensível dizer isso pro noivo.
— Você é o primeiro noivo que vejo que não sabe a paleta de cores do próprio casamento.
— Jesus, de novo isso de paleta. Isso é tão importante assim? Não posso ter todas as cores? — ele bufou, uma das mãos gesticulando para fora do bolso da calça de alfaiataria. arqueou uma sobrancelha, tomando um ar de diplomacia que sempre o fazia se sentir minúsculo. — Então vai, me diga, qual a paleta do meu casamento?
— Como eu saberia disso?
— Tudo bem, pode ser a minha cor favorita. Você se lembra qual é a minha cor favorita, não é? — ele fixou aquelas pupilas quase sempre dilatadas pelas drogas bem dentro das dela. — Essa é a droga da paleta.
ficou em silêncio. Não houve nenhuma perturbação no seu rosto, nos cílios, na ponta dos lábios, nada. Mas ela nunca pareceu tão imóvel em toda sua vida.
— O que você veio fazer aqui mesmo? — ela disse depois de uma breve tossida para limpar a garganta. — Mencionou bem, eu não disquei seu número.
— Vim pagar o sinal. Ou a entrada, como queira chamar. Não é assim que funcionam essas negociações de casamento?
— Sua noiva já me pagou o adiantamento. Você só tinha que escolher.
— Mas eu dobrei a proposta, então acho que você vai precisar de mais um pouco. — ele sacou a carteira, dedilhando o dinheiro vivo e novo organizado no canto dianteiro. — Três mil dólares dá pra você trocar aquela caixa registradora? Ou trocar a parte elétrica? Percebi que o ar-condicionado não funciona.
Ela se segurou de novo para não revirar os olhos.
— Eu trabalho pra conseguir tudo o que tenho, senhor Jeong. Não precisa se preocupar.
— Esse dinheiro não é do seu trabalho?
— Você não está me pagando pelo trabalho, você tá tentando comprar o meu tempo. — ela cruzou os braços frouxos na frente da barriga. — Vai ser inútil. Não estou à venda.
“É isso que te torna digna de pena”, ele retrucou na própria cabeça. Queria sacudir todos os seus cartões na cara dela para fazê-la perceber isso. Queria tirar aquela expressão antiga e familiar de alguém que estava sempre pronta para rejeitar tudo que lhe era dado, e não conquistado.
Seria inteligente recuar agora. Mas algo estava fervilhando nas mãos, nos pés e nos olhos dele.
— Toma alguma coisa comigo.
franziu o cenho.
— Não.
— É uma reunião sobre as flores.
— Então chama a sua noiva e vamos juntos.
— Naomi está em Nova York. E deve estar com a voz terrível depois de ter passado a noite no show de algum cover do AC/DC, então nem adianta pedir uma chamada de vídeo. Acho que ela não está ouvindo direito também. Podemos ir tomar um café.
Ela abriu e fechou a boca. Certas ideias que envolviam ela e estavam totalmente na ala de proibidos. Ficar sozinha com ele fora daquela floricultura encabeçava essa lista.
— Eu estou trabalhando. — ela apontou para o entorno, caso ele tivesse se esquecido.
— Está quase na hora do intervalo.
— Não fecho no intervalo.
— Admirável. Mas te garanto que vinte minutos em qualquer espelunca desse bairro não vão te fazer perder nenhuma fortuna.
revirou os olhos de novo. Ele estava falando com superioridade de novo, um protótipo corporativo enfiado em um terno caro que sentia pena de tudo e todos que não gerassem os devidos zeros capazes de movimentar uma cidade, ou um país inteiro. Ou seja, um babaca.
Ela não tinha chegado até ali, na capital, para ser alvo de pena. Não queria pena.
— Vinte minutos. Nenhum a mais.
E virou a placa para Fechado.
Quando o carro parou, preferiu deixar as honras com a abertura de portas para John. Saiu ajeitando os punhos da camisa, marchando para dentro do café como se fosse o dono do imóvel — e, pelos próximos vinte minutos, tecnicamente era.
veio logo atrás, sem fazer questão de olhar para o chão ou para a fachada luxuosa. Olhava apenas para as costas dele.
O rosto de tampouco se chocou com qualquer detalhe do lado de dentro. Esse tipo de coisa não era suficiente para fazê-la se exasperar; seu negócio era mais exigente e complexo, profundo até. O mundo estava cheio de belezas artificiais, como dizia seu pai. Ainda que estalasse os dedos e fizesse surgir um garçom das sombras com uma garrafa de vinho que custava três meses de salário de um trabalhador comum, não iria fazê-la derreter.
— Château Margaux. — anunciou, sentando-se sem puxar a cadeira para ela. — Safra de 2010. O ano em que saí daquela pocilga onde a gente morava. Achei poético.
sentou-se. Estava olhando para uma caixa mal escondida aos pés de um armário de vidro, exibindo pelo menos meia dúzia de sacos de batata.
— Eu não bebo em serviço. Aceito uma água, sem gás.
riu. O som bateu nas paredes vazias da cafeteria. Ele fez um sinal para o garçom, que serviu o vinho para ele e a água para ela, tremendo levemente. Em seguida, os funcionários evaporaram, deixando os dois sozinhos com o zumbido do ar-condicionado.
— Você continua teimosa. — girou a taça, observando o líquido vermelho manchar o cristal. — E continua vestindo roupas de liquidação.
— E você continua um adorador dos números, aparentemente.
parou a taça no ar. De alguma maneira, seus olhos ficaram mais frios.
— É, os números, Bennett. Se conseguir dar conta da encomenda das flores, o orçamento tá aprovado. Quinze mil dólares, o dobro do valor. E quero tudo da melhor qualidade, nada daquelas margaridas de cemitério que você expõe na prateleira.
— Não precisa dobrar o valor, o orçamento de antes já é bem adequado ao pedido.
— Você não entendeu. Eu não estou pedindo. Estou mandando você lucrar. — ele se inclinou sobre a mesa, o cheiro de álcool e perfume caro invadindo o espaço dela. — Você veio pra Montgomery pra melhorar de vida, não? Uma vida que não seria melhorada em Black Belt, onde suas florzinhas violetas iriam parar longe por qualquer vagabundo bêbado que estivesse num dia ruim. Não foi isso que fizeram com seu carrinho de limonada?
arqueou as sobrancelhas.
— Você tem uma memória muito boa. — ela mesma já tinha quase esquecido aquela história. Black Belt era cheia de bêbados e de dias ruins, que se decidissem, chutariam sua mesa improvisada de fórmica na beira da calçada, deixando sua caixinha de moedas bem amassada e toda sua vidraria espalhadas violentamente pelo chão. — Mas se é por isso que quer bancar o filantropo comigo, pode guardar a carteira. Não guardo ressentimento daquela época.
A mandíbula de se apertou, e os olhos continuavam naquela escuridão intensa. Era um sentimento difícil de explicar aquele que tinha por uma pessoa que abandonava coisas. Que escolhia se esquecer daquilo que deveria lembrar para sempre, como o fato de um idiota ter chutado e acabado com seu trabalho de horas, um trabalho que precisou de dinheiro e que agora não serviria de mais nada.
Pessoas que faziam isso não mereciam ser esquecidas. Se elas decidiam chutar, então ele decidia se vingar.
— É claro que não guarda. Mas eu lembro das coisas. E sou um homem de palavra, não vejo mal em retribuir alguém que foi bom comigo. — com delicadeza, pegou a garrafa de vinho e verteu um pouco do líquido na outra taça além da sua. — Dá uma olhada em volta, . Fechei um estabelecimento na Old Alabama numa terça-feira à tarde, pedi um vinho que custa o seu aluguel e, se eu não me engano, esse cheiro é de uma fornada de suflê de Grand Marnier assando, se eles usaram todos os ingredientes que mandei. Tem homens na porta que estão vigiando a sua loja, o meu carro, respondendo recados e aguardando a próxima ordem que eu puder dar. E você ainda quer falar sobre orçamento adequado?
tomou um gole de água, bem devagar. Dava para perceber que uma parte da raiva dele ainda não tinha sido totalmente desligada.
— Eu quero falar sobre por que estou aqui. Já disse tudo que tinha pra dizer sobre o orçamento, e se está tudo certo, eu vou embora.
— O orçamento é só um dos motivos.
— Então por que…?
— O outro é você. Te chamei aqui porque eu quero olhar pra você.
A frase saiu crua. Por um longo momento, não soube o que dizer. Esperava, sim, que ele tocasse naquele assunto, mas não de uma forma tão descarada. E tão… difícil explicar.
não estava sentindo nenhuma euforia romântica, ou a mínima tendência a um flerte barato. Nunca soube fazer isso, e sendo um rapaz bem apessoado desde que veio ao mundo, nunca precisou de verdade. Quando se tratava de Bennett, o lance não era flerte ou conquista. Era simplesmente convencimento. A fome de ver um objetivo antigo numa vitrine e lembrar que agora tinha crédito para comprá-lo.
Percebendo essa realidade, não quis mais encará-lo.
— Você ficou maluco.
— Você não mudou nada. — ele continuou, a voz baixando um tom. — Ainda tem esse olhar de quem sabe mais do que todo mundo. O mesmo olhar que você me deu quando eu disse que ia embora.
— Você foi embora. — ela corrigiu, levantando o queixo. — Aliás, você fugiu. Mandou a vila toda pro inferno e sumiu no mundo. Ficou chocado comigo, mas sou quem deveria estar surpresa por te ver a apenas alguns quilômetros de lá.
— Não se iluda com isso. Não sou um idiota, . Montgomery foi um ótimo ponto de início e construí uma vida em torno dela e além, garantindo que essa cidade fosse minha e que testemunhasse o quanto eu poderia ser tão bom quanto Wall Street mesmo sem colocar meus pés lá. Eu venci. — bateu a base da taça na mesa. O cristal tiniu. — Existe uma diferença entre isso e a fuga. Eu saí do buraco, construí um império e vou me casar com uma mulher cujo sobrenome abre portas que você nem sabe que existem.
— Então por que está tremendo, ?
Ele travou. Olhou para a própria mão sobre a mesa. Estava firme, imóvel como uma estátua, mas a vibração estava lá, no ar, no vidro, no peito.
Mas não estava olhando para a mão dele e sim, para o rosto.
— Você me trouxe aqui só pra se exibir. Pra me mostrar o terno, o carro, o vinho. Você quer que eu me arrependa. Quer que eu olhe pra isso tudo e pense: "Nossa, olha só o que eu perdi”.
— É, você perdeu. — ele rosnou. — Você ficou com a poeira, com os bêbados, a febre tifoide e as dívidas. Eu tive pelo menos o cuidado de conquistar alguma parcela do mundo.
— Você não tem o mundo, você só tem um circo. — levantou-se. O movimento foi suave, sem o rompante dramático de novelas. — Naomi Robbie não vai ser sua esposa, só vai ser sua sócia. Esse vinho não é gostoso, ele só é caro. E qual é a grande vantagem em comandar funcionários que você nem vê como pessoas? Aposto que esses caras te odeiam, não importa o quanto você pague. — ela gesticulou para a fileira de homens de preto do outro lado do vidro, todos equipados com pontos de ouvido e relógios relativamente caros nos pulsos. — Você não é um vencedor, . Só ganhou um pouco mais de dinheiro e agora tá jogando banco imobiliário com os grandões. O que te dá medo, dá pra ver.
Ele ficou de pé num ímpeto, a cadeira arrastando no chão com certa violência.
— Não tenho medo de porra nenhuma. Parei de ter medo de qualquer coisa há quinze anos, . Você não me conhece mais.
— Mas você me conhece, e mesmo assim armou toda essa palhaçada.
— Esperava que você tivesse crescido. Ou melhor, que tinha aprendido o jogo da vida adulta, aprendido que sorrisinho e gentileza não pagam as contas. Aliás, aposto que as suas naquele cubículo devem ser muitas.
ficou em silêncio. Havia certas coisas que, por mais que ele estivesse falando a verdade, ela se recusaria a admitir. Pelo menos, pela boca.
percebeu tudo pelos olhos.
— É, você entendeu. Tô querendo te ajudar, Bennett. Posso comprar essa cidade inteira num piscar de olhos e te colocar no melhor ponto estratégico pra vender tulipas. Também posso pedir pra demolirem aquela construção depois de uma batida do departamento de agricultura. Você ficaria chateada e entraria com um recurso, mas sem grana pra um bom advogado, ia ficar sem abrir por um tempo indeterminado. Um dia talvez conseguisse reaver o contrato. Mas ia levar muito tempo, você tem esse tempo?
virou o rosto. O sol da tarde estava batendo mais laranja do lado de fora, criando sombras artificiais das duas pessoas que sempre foram especialistas em não desviar o olhar. Para , isso tinha ficado mais fácil, mas na época de Black Belt, sempre perdia para ela. tinha esse poder de potencializar um olhar, de queimar sua pele como uma lupa no raio de sol.
— Você pode comprar a loja, . Pode comprar a rua inteira, a cidade, o Alabama, todos os territórios do Sul. Pode imitar os antigos e comprar seu lugar no céu. Mas nunca vai conseguir comprar o que eu sinto quando coloco a cabeça no travesseiro. — ela olhou para ele daquele jeito, sabendo que ele se lembraria: pena devastadora. — Eu durmo. Você só desmaia. E talvez existam garotas em Montgomery que deixam você falar desse jeito, mas espero que ainda se lembre que não sou como elas.
se afastou até a porta com a boca contorcida. O sino tocou novamente na saída. Trim.
ficou sozinho, odiando o cheiro daquele vinho milionário, odiando a textura dele, a cor parecida com sangue velho. Odiou alguns pares de olhos que tentaram bisbilhotar sua expressão, mas que logo se voltaram para qualquer canto, achando de bom tom cuidarem da própria vida. Ele se sentiu como um moleque de novo, aquele se sentava na escadaria do Ronnie’s, a única lanchonete 24 horas do vilarejo, enquanto esperava a hora do seu turno e mastigava os últimos conselhos de sua namorada hiper sensata.
Se você conseguir ser honesto e eficiente nas pequenas coisas, , as grandes vão naturalmente te encontrar.
Bobagem. Ele tinha tentado isso. Tentou ser um ser humano decente e um homem espetacular antes de perceber que nada disso traria o que mais queria: dinheiro.
O bem bruto que devia ser abundante, chamando-o desde a capital, desde Nova York: vem me buscar, gracinha. Se não, vai ser um pé rapado a vida inteira e nunca vai ganhar aquelas sapatilhas da Dorothy de O Mágico de Oz.
As sapatilhas guardadas até hoje no mais fundo do armário mais esquecido de sua enorme casa nos confins da cidade.
Lembrança ruim. Lembrança de merda. Lembranças.
Ele virou o restante do vinho que estava na taça. Foi o pior vinho que tomou em toda a sua vida.
c o n t i n u a–
NOTA DA AUTORA › olá, tudo bom?
primeiramente, quero agradecer a você que leu esse capítulo novo. quando se trata de fanfic, pode ser um pouco mais difícil imaginar certa pessoa real em um papel tão discrepante da aparente realidade em que ele vive, mas é pra isso que existe a tal da licença poética rsrsrs. essa história veio com uma proposta de ser curta e um tanto quanto despojada, então espero que vocês gostem (e comentem!).
um beijo de alís.
primeiramente, quero agradecer a você que leu esse capítulo novo. quando se trata de fanfic, pode ser um pouco mais difícil imaginar certa pessoa real em um papel tão discrepante da aparente realidade em que ele vive, mas é pra isso que existe a tal da licença poética rsrsrs. essa história veio com uma proposta de ser curta e um tanto quanto despojada, então espero que vocês gostem (e comentem!).
um beijo de alís.
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